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Excertos do Prefácio, de Júlio Machado Vaz

“Meu caro Amigo, … afinal porquê pedir a opinião de um velho censor reformado…? … Mas vamos então ao livro… De um tal Canella… bastará atentar no uso compulsivo de palavras obscenas e na abordagem de temas que o não são menos. Hábito frequente dos nossos irmãos brasileiros, amiúde perdoado com base numa teórica doçura da pronúncia oral, que se traduziria na linguagem escrita por uma espécie de eterno Entrudo. … a forma é deprimente; quanto ao conteúdo…, os títulos falam por si. Que se pode esperar de um autor dissertando sobre o estupro, os gonococos (on the rocks…), sexo, cópulas e salários, e outras “preciosidades” semelhantes? Pareceria tratar-se de pena coxa ao serviço de cabeça suja… Considero, no entanto, esse rótulo perigosamente simplista, a coberto da baixeza esconde-se intuito terrorista, a superficialidade visa provocar o desprezo pontual e distraído, impedindo a análise cuidada que conduz à justa preocupação e – quisera eu… – ao castigo exemplar. … Falo do livro “original”, pois a pretexto de maior aproximação ao leitor português a peçonha alonga-se por enormes notas de rodapé. Vasco da Gama um “navegador comerciante”? Visitar o túmulo de Junqueiro, esse homem que maculou a poesia com o seu ateísmo impenitente? … João da Ega passeando-se por Lisboa… o alter ego do seu criador, o iconoclasta Eça, de cuja pena se derramou o fel que enche obras como O Crime do Padre Amaro, A Relíquia ou A Capital. … Dirá o meu Amigo: que fazer?… A todas as perguntas uma só resposta: Portugal! Mas desta vez sem primaveras marcelistas e com cadeiras sólidas para os líderes. Como o meu bom Amigo… Vá pensando nisso e quando o dia da redenção chegar – ah!, que saudades do Hino da Restauração cantado na Mocidade Portuguesa… – não se esqueça do seu, J. Guilherme Ferreira M. V.”